A caravana da vida

  • 25 de fevereiro de 2013
  • Categoria: Crônica

Decidi falar de algo que interessa a nós dois

Sim, porque existimos e pulsamos desde que uma mulher generosa nos colocou neste mundo. Claro que isto aconteceu graças, também, a decisão de um outro ser humano – barbado – que podemos atribuir 50% de responsabilidade de todo isto. Mas não quero falar de coisas biológicas, o que quero, desde meu farol de filosofante, é perder-me nos meandros de minha consciência enquanto observo um pouco surpreso um mundo cada vez mais complexo e acelerado. Desde o alto pretensioso dessa torre que teoricamente iluminaria os navegantes perdidos, mas que mal esclarece minha própria rota, observo a caravana de pessoas que se dirige sem presa a um destino que desconheço. Não diviso os líderes nem tampouco os últimos da interminável fila; eu mesmo sou um integrante dessa turma de viajantes que tentam atravessar, da melhor maneira, esse árido deserto que chamamos de vida. Mas, cada tanto, sinto a necessidade de isolar-me e olhar o grupo que continua à caminhar renovando o perfil de seus andarilhos.

 

Nem imagino aonde os caravaneiros nos levarão e também desconheço o andar dos caminhantes que perdi pela estrada. Devem estar longe, andando sem parar enquanto observo desde meu mirante, avaliando o melhor momento para entrar de novo e descobrir outras pessoas, outras paixões e novas ilusões. Sinto um pouco de medo com a velocidade que cada vez é mais rápida tornando tudo mais efémero e fugaz. Preciso preparar minhas pernas para essa maratona que nos obriga a existir aceleradamente. Não há tempo para perder, vamos logo! Ouvimos isto a todo momento enlouquecendo a caravana que parece correr, respondendo a uma urgente impaciência que não compreendo. Lembro de uma vida calma quando séculos atrás podia cuidar do meu jardim deixando-me conduzir pela vontade de uma árvore qualquer que, vagarosamente, engrossava seu tronco sem pensar nas flores do amanhã. As décadas foram passando e novas ideias surgiram substituindo as concepções intelectuais que, lentamente, não eram capazes de acompanhar um mundo cada vez mais célere. Músicos encurtaram as páginas de suas partituras, pintores esqueceram os detalhes valorizando a expressão instantânea e os escultores deixaram de cinzelar o mármore branco, acabando com qualquer esperança de um novo Davi ou de um novo Moisés. Tudo deve ser veloz, a obra e, igualmente, o tempo usado para contemplá-la. Eu mesmo vejo que devo terminar este texto, apesar de não conseguir explicar coisa alguma, porque o tempo urge.

Enquanto isso a caravana segue rapidamente. As árvores, indiferentes, aumentam de tamanho lentamente e com a mesma intensidade de sempre. Eu desço do farol e, meio trôpego, me junto à caravana para prosseguir vivendo cada vez mais rápido, sem entender porquê.

Autor: Raul Cânovas

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