A magoa de uma planta qualquer

  • 04 de dezembro de 2012
  • Categoria: Crônica

Seu semblante, o aspecto que mostrava, tornava evidente um angustioso ressentimento

Era uma planta sem importância, uma planta qualquer e nunca valorizada por pessoa alguma. Crescia à toa em um recanto perdido de um prédio enorme, um rincão pouco iluminado e quase esquecido dos olhares dos que passavam à distância, apressados e compenetrados com seus problemas. Alguém, ninguém sabe quem, abandonou o vaso presenteado, por puro desinteresse no seu passado estético, beleza que outrora possuíra e fico ai, sobrevivendo a frieza do mundo apático que a viu nascer.

Água era escassa e pouco frequente, chegando na forma de um pano de chão torcido no solo esturricado, soltando um líquido escurecido pelas poeiras do corredor lavado e enxugado. Mas, mesmo assim, essa água suja lhe dava de comer e de beber e com ela podia resistir a fadiga de existir.

As segundas-feiras eram iguais aos sábados, monótonas como toda terça e chatas como os outros dias da semana. Até os domingos, divertidos para muitos, eram tediosos e piores do que os outros porque a luzes não eram acesas e ninguém andava pela passagem estreita e alongada, calçada com cerâmico em branco e preto. O desgosto com essa desolação lhe amarelava as folhas que resistiam e resultavam na perda das que sucumbiam. Não entendia o porque dessa existência que já tinha sido melancólica e que, agora, era de uma amargura incômoda por esse sofrimento que lhe causava dor no caule e no cerne. Sentia-se inútil e magoada, e pensava temerosa sobre seu destino final.

Porém, um dia aconteceu algo inesperado, um bombeiro, depois de resgatar uma gente que ficara pressa no elevador, perguntou ao zelador o que fazia esse vaso no canto esquecido. O empregado do edifício lhe respondeu que estava aí porque era o único lugar onde não estorvava a circulação e que já pensara em jogá-lo fora. O homem, acostumado com emergências e treinado para salvar vidas, ficou compadecido e perguntou se não podia levar a planta de presente para a esposa. Sim, claro, respondeu o zelador boquiaberto, que não entendera o interesse por algo tão sem valor.

A planta, maltratada por uma vida infeliz, encontrou um destino que lhe devolveu a luz interior. Refletia na aparência cada vez melhor, do verde e do brilho de seu cerne. A mágoa acabara.

Penso que, quando acuados pela mágoa, precisamos chamar os bombeiros, não discando 193, mas pedindo socorro a aquele que possa combater os incêndios emocionais. Sempre haverá alguém que supra as ternuras perdidas. Sempre...

Raul Cânovas | Paisagista

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