Não entender de plantas

Ué! Será que isto é um impedimento para gostar delas?

Cecília Meireles, no jardim

Pergunto isto porque muitas, muitas vezes ouço dizer que, por não conhecer sobre plantas, as pessoas se privam do convívio com um jardim simpático e acolhedor. Se assim fosse, Cecília Meireles não teria escrito:

“No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta”

A poeta, falecida há quase meio século, pouco entendia de plantas, apesar de casada com um engenheiro agrônomo e mesmo assim convocava na sua obra as flores que tanto amava. E os pintores? Já imaginou o que seria a história dos impressionistas sem as bucólicas paisagens da Normandia, da Provença, da Île-de-France ou dos arredores de Paris? Como teriam expressado sua obra, Monet, Cezanne, Manet, Renoir e todos os outros artistas se tivessem dito: “não entendo de plantas”?

Na boa música achamos um grande número de exemplos, onde a paisagem pastoril inspirou compositores de todas as épocas. Vivaldi com “As Quatro Estações” e também Mozart, Tom Jobim e Philip Glass, mostraram isto, deixando composições que gosto de ouvir no meio do meu jardim.

Escultura de Zenos Frudakis “Freedom” (“Liberdade”)

Mesmo assim, com todos estes exemplos e muitos outros que poderia listar até cansar-me, continuo a perceber que as pessoas sentem algo esquisito quando precisam falar do próprio jardim. Na maioria das vezes o relacionamento inicial é carregado de desconfianças, impaciência e uma angustiante aflição por não conseguir uma comunicação real com todo esse agrupamento de verdes que formam a paisagem inventada por eles mesmos ou por alguém que contrataram e que, supostamente, deveria ser o interlocutor entre eles e as plantas. Plantas que não podem ser comandadas de modo autoritário, como muitos praticam com subalternos e com os próprios filhos. Elas não são jamais subjugadas, apesar das podas inglórias, dos adubos e hormônios que as obrigam à crescerem de pressa e dos funestos plantios em locais inadequados. Plantas existem para ensinar-nos o significado da palavra “Liberdade”, deixando claro que sem ela, sem o sentido de sermos livres para agir de acordo com a nossa própria e verdadeira natureza, a vida não tem sentido algum. As plantas possuem, de um modo peculiar a cada espécie, uma vontade cheia de atavismos que foram nutridos por leis da física, da biologia e, principalmente, de muitos mistérios que precisamos ainda compreender.

Île-de-France, Paris

Por tudo isto, se você não entende de plantas, não fique aflito. Apenas aprenda à respeitar a liberdade que elas conquistaram muito antes delas imaginarem que seres humanos habitariam o planeta Terra e que alguns deles seriam jardineiros. Ui!

Autor: Raul Cânovas

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