Jardineiros

  • 15 de dezembro de 2011
  • Categoria: Crônica

 No Dia do Jardineiro, deixo aqui o trecho de um texto de Vinicius de Moraes, pouco conhecido

Rosas

 

Médico de flores

Gostaria de ter nos meus cartões de visita: V. de M., médico de águas. Assim seria apresentado às pessoas nas festas, em vez de como poeta ou diplomata. E ante a estranheza que lhes causaria o título, eu confirmaria gravemente:
- Sim, minha senhora, médico de águas, para servi-la...
Depois a imaginação se me partiu, e eu fiquei achando que médico de flores seria ainda mais belo. Que linda e honesta profissão a ter! E como eu seria o único do Rio, não chegaria para as encomendas, com uma clientela de fazer inveja a meus amigos os drs. Clementino Fraga Filho, Marcelo Garcia e Ivo Pitanguy, dentro de suas especialidades. Estaria assim muito bem no meu consultório e de repente minha mãe, aflitíssima, telefonaria: "Meu filho, vem depressa que minhas rosas estão morrendo..." E eu partiria com a minha maletinha para auscultar o coração das rosas, aplicar-lhes a coramina das flores, fazer-lhes transfusão de seiva, reavivar-lhes as cores, a fragrância, a beleza. E mal chegado a casa já haveria recados de milhões de amigas preocupadíssimas com suas azáleas, seus rododendros, seus antúrios. E eu voltaria feliz e diria com orgulho e alegria à Bem-Amada: "Acho que consegui salvar as rosas de minha mãe." E a Bem-Amada ficaria muito contente e me daria um beijo. E eu daria também consultas a flores pobres, e na rua todas as damas me sorririam com simpatia e respeito, cumprimentando- me com graciosos ademanes. E eu as cumprimentaria de volta, com a circunspecção que deve ter um médico de flores.

Vinicius de Moraes

Conheci o “poetinha” em 1969, quando ainda morava em Buenos Aires. Estava em um lugar pequeno e seu empresário me levou uma tarde para assistir, de modo muito intimista, o ensaio do show que aconteceria à noite para o público portenho.

Não sabia, na época, que Vinícius sonhara em ser um médico de flores. Fiquei fascinado na frente dele e hoje fico feliz ao saber que, como eu e todos os jardineiros, gostava de flores.

Autor: Raul Cânovas

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