O pinheiro descartável

  • 09 de dezembro de 2011
  • Categoria: Crônica

São impressionantes as coisas que podem ser achadas no lixão, nesses vazadouros onde os restos são depositados e aonde Joselino ia todos os dias

 

Ele era catador, filho de catadores, como se honrasse uma tradição familiar. Tinha nascido ai mesmo, numa semana de Natal, doze anos atrás e aprendera a brincar com os porcos no meio de montões de coisas que foram jogadas fora por serem inúteis, mas que por ironias sociais ele as achava, muitas vezes, proveitosas. No último janeiro, depois de todos os festejos, Joselino equilibrando-se em cima de uma pilha enorme, que acabara de ser jogada, viu algo que chamou sua atenção. Meio melecado de restos de comida, sujo e quase estropiado, um pinheirinho mostrava ainda certa vitalidade apesar do estado maltrapilho em que se encontrava. O menino, cuidadosamente, removeu as sobras que o acompanhavam e tirou uma fita vermelha com bordas que tinham sido douradas e que ainda amarravam os ramos da árvore. Depois de lavá-lo no riacho o levou para sua casa e o plantou com cuidado sob o olhar atento do Nescau, seu vira-latas de estimação. Apesar do estado de abandono e de alguns galhos machucados aparentava melhoria, aprumado na enorme panela de ferro onde fora colocado.

A panela era outra curiosidade. Furada na base, não tinha méritos na cozinha e fora descartada há tempos, mas agora, por mero acaso, tinha se transformado em peça de enfeite na varanda do humilde barraco de periferia. Até parecia coisa de revista e Joselino sentia-se orgulhoso do feito, dispensando cuidados com água e esterco de porco seco que misturava à terra do vaso improvisado. Aos poucos foi se aprumando e embora desprovido dos ramos inferiores, que tinham secado, estava bem porque umas marias-sem-vergonha o acompanhavam, preenchendo esse vazio.

Os meses se passaram e, com a proximidade das festas, o pinheirinho ganhou popularidade no bairro, especialmente depois de que Joselino o enfeitou com bolinhas de crochê coloridas, feitas pela avó do Zeca, seu colega de escola e de aventuras.

Há pessoas que se desfazem de bens de modo impensado, abandonando aliados que respiram. Outros, como Joselino, ressuscitam as indiferenças desprezadas e as transformam em motivos de contemplação festejados.

Feliz Natal Joselino e um bendito aniversário!

Autor: Raul Cânovas

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