O assassinato da árvore

  • 06 de outubro de 2011
  • Categoria: Crônica

Todo ano se preparava para florir intensamente e, metodicamente, espalhava suas pétalas na calçada. Até que um dia...


Jacarandá

Floria desde sempre nos outubros e regozijava-se por poder aliviar as frias pedras do passeio. A rotina era realizada na forma do cumprimento de um dever, fazia isto há muitos anos, antes mesmo do calçamento da rua, das guias e dessa parte mais elevada, destinada às pessoas do bairro que andavam a pé. Olhava a paisagem, desde sua copa, surpresa com tantas novidades e com essa agitação cada vez maior no quarteirão onde vivia. Eram prédios, banca de jornal, um ponto de taxi na outra esquina, enfim. A cada ano surgiam coisas impensadas tempos atrás, quando ainda era uma mudinha pequena e fora plantada ai pelo seu Miguelzinho.


Seu Miguelzinho

Seu Miguelzinho fora sapateiro, isto é, consertava sapatos. Fazia meia-sola, costurava o couro quando se separava do solado, coisas que hoje não têm importância, porque as pessoas não cultivam grandes amores pelos seus sapatos, apenas os exibem como troféus e não como algo que faz parte do cotidiano nos ajudando a andar por este mundo de modo mais leve e com mais ânimo. Certo dia, o remendão do bairro plantou a muda de jacarandá que trouxera de uma festa no Clube Português, lá nas Perdizes. Ganhara a muda no bingo e feliz decidiu plantá-la na frente da sua oficina, para alegrá-lo e atrair bem-te-vis que, nos galhos, poderiam construir seus ninhos.
 


Bem-te-vi


E assim foi, como seu Miguelzinho sonhara: a árvore crescendo, o assobio daqueles pássaros, a florada na primavera e a chuva de pétalas violáceas que a brisa dos entardeceres propiciava. Valeu a pena as regas, o tutoramento inicial, por as formigas para correr e, especialmente, o carinho que sentia por essa caroba, como era chamada pelo vizinho paranaense que viera de Campo Largo, onde segundo ele, cresciam “aos montes” perto do rio Tibaji. Valeram a pena todos os esforços para que ela desenvolvesse com saúde.

Mas tudo isto foi há muitos anos. Seu Miguelzinho morreu e deixou neste mundo apenas saudades na freguesia e uma árvore entristecida. Até parecia que tinha perdido mais folhas que de costume, nesse mês de junho, quando seu benfeitor partira. Mas apesar da ausência do sapateiro o jacarandá continuou a dar flores nos outubros de sempre, foi persistente no seu gesto exagerado de salpicar a calçada com cores violáceas, criando tapetes rendados com a ajuda das luzes que os sois primaveris lhe enviavam.

Porém um morador, que se mudara há pouco tempo ficara incomodado com a “sujeira” que o jacarandá ocasionava e varria a calçada de forma quase obsessiva. Todas as manhãs surgia com uma vassoura para fazer o serviço. Com o tempo repetia isto também às tardes e, não satisfeito com a expulsão da flores, varria para tirar qualquer folhinha que aparecesse. Diariamente o homem dedicava-se a esta tarefa higiênica até que um dia, tomado por um acesso de ira incontrolável, deu sete tiros com seu 38, esvaziando o tambor da arma no tronco da árvore. Esta, a essa altura de sua vida, velha e cansada depois de tantas flores paridas, aproveitou as circunstâncias e foi fazer companhia à seu Miguelzinho. Desfaleceu resignada a não ornar mais o chão, nos outubros deste mundo e deixou sem lar uma família de bem-te-vis.

Nenhum jornal e nenhuma rádio noticiou o assassinato. O dendroclasta está solto, pessoa alguma se importou com o crime e, no velório sem flores, não compareceu ninguém, apenas uma revoada de pássaros trinou melancolicamente.

Autor: Raul Cânovas

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