O vento e as plantas

  • 01 de setembro de 2011
  • Categoria: Crônica

Dias atrás o furacão Irene, uma tempestade de categoria 3 na escala Saffir-Simpson, passou sobre as Bahamas a 185 km/h, destelhando casas e causando uma série de outros estragos

 

O arquipélago das Bahamas estende-se desde a costa da Flórida até o norte de Cuba e Haiti. São 22 ilhas habitadas, 700 sem uma alma humana e outras 2.000 pequenas ilhotas compondo esta parte ocidental do Atlântico. Com clima tropical, chuvas constantes especialmente no verão e no outono e exposta entre julho e novembro a esses temporais violentos associados a dias de sol forte, a região é repleta de florestas tropicais e orquídeas raras.

Há apenas dois cursos de água doce em todo o arquipélago, localizados na ilha de Andros, e muitas lagunas pouco profundas entre as ilhotas e os bancos de areia. A evaporação alta incentivada pelas temperaturas que nunca caem abaixo dos 21°C e o solo salobro dos manguezais costeiros e das savanas no interior, deram como resultado uma vegetação muito particular que, acostumada há séculos com esse clima tempestuoso, reage bem aos ventos ciclônicos associados à cargas de água.


Calopogon tuberosus


Sabal palmetto

Mas o que chama a atenção é que, apesar da força das trovoadas e das chuvas gerando intensos ventos que podem ultrapassar, ocasionalmente, 300 km/h, a vegetação se recompõe e continua exuberante. Isto se deve ao fato de que a flora local não “aguenta” tempestades, mas precisa delas para sobreviver. Digo isto porque frequentemente me perguntam sobre pantas que aguentam vento e sempre respondo que elas não existem, porém há aquelas que habituadas a estes fenômenos não podem viver sem eles. Nas Bahamas, por exemplo, a Clusia rosea e a Coccoloba pubescens se beneficiam das brisas marítimas graças a suas folhas coriáceas e brilhantes. A Guaiacum officinae é outra árvore interessante que cresce lentamente, fornecendo madeira dura e lindas flores azuis. Entre as orquídeas se destaca a Calopogon tuberosus, com flores róseas que, curiosamente, não produzem néctar e, depois de atrair os polinizadores, os capturam durante alguns minutos para, na luta por libertar-se tocarem as partes reprodutoras da flor cumprindo assim o processo reprodutivo.

As bougaivilleas, os hibiscos e as alamandas fazem parte da paisagem e são cultivados para a alimentação: sapotis, laranjas, abacates, abacaxis, romãs, limas e mamão-papaia. Entretanto, o que marca as Bahamas são suas palmeiras, como a Coccothrinax argentana, com 8 a 10 metros; a Sabal palmeto, com o dobro de altura; a Thrinax radiata, usada para a confeção de chapéus; a Leucothrinax morrisii, menor do que as anteriores; todas de folhas palmadas e acostumadas com solos salinos, além dos coqueiros de folhas pinadas, sempre agitados pelo vento e muitas vezes inclinados para cumprimentar a natureza, por momentos impetuosa, contudo sábia, já que nunca castiga sua flora e sim a mantem desperta.

Autor: Raul Cânovas
 

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